A três meses da eleição, Atlético-MG tem guerra fria nos bastidores entre Sérgio Sette Câmara e Alexandre Kalil

Por Gabriela Moreira, Rodrigo Capelo e Sérgio Rangel — Belo Horizonte

 


Disputa política esquenta bastidores do Atlético
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Disputa política esquenta bastidores do Atlético

Contratações, estádio novo em construção, técnico carismático, perspectiva de conquista de novos títulos. A torcida do Atlético-MG tem razões para estar empolgada com a fase do clube.

Nos bastidores, porém, está em andamento a disputa entre dois cartolas mais poderosos da história do clube. Com acusações de lado a lado.

Alexandre Kalil, ex-presidente e hoje prefeito de Belo Horizonte, e Sérgio Sette Câmara, atual presidente atleticano, já foram aliados.

Kalil comandou o clube entre 2008 e 2014. Foi o presidente na conquista da Libertadores em 2013. Apoiou a eleição de Sette Câmara em 2017.

Em 2019, os dois seguiram caminhos diferentes. Sette Câmara se aproximou de dois empresários – Ricardo Guimarães, do BMG, e Rubens Menin, da construtora MRV e do Banco Inter. Pessoas ligadas a Kalil começaram a deixar o clube.

Alexandre Kalil e Sérgio Sette Câmara. Atrás deles, está Ricardo Guimarães — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

Alexandre Kalil e Sérgio Sette Câmara. Atrás deles, está Ricardo Guimarães — Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

As demissões

Numa tentativa de reestruturar administrativamente o Atlético-MG e de reduzir custos, Sérgio Sette Câmara contratou auditorias e consultorias. O presidente também deu início a uma sequência de demissões.

– Fizemos um levantamento de valores e profissionais, e aí detectamos que o Atlético estava pagando salários acima dos valores praticados no mercado. E também detectamos um excesso de funcionários no clube. Não houve absolutamente nenhum tipo de busca de pessoas ligadas a quem quer que seja, mas que existia realmente um excesso de funcionários, existia, e com valores bem acima dos praticados no mercado – afirma Sette Câmara.

No total, segundo o presidente, foram feitas cerca de 300 demissões. Muitas delas em 2020, período em que problemas financeiros foram agravados pela pandemia do coronavírus.

Algumas demissões atingiram parentes de Alexandre Kalil que ainda trabalhavam no Atlético. O primeiro a sair foi o filho, o ortopedista Felipe Kalil. Ele pediu demissão em abril deste ano. Em maio, foi a vez do sobrinho, o preparador físico Luiz Otávio Kalil. Ele foi demitido.

– O Felipe Kalil teve um problema particular com um ex-presidente, e aí saiu na imprensa, não tenho o que ficar escondendo, e aí ele me procurou e pediu pra sair. Eu na oportunidade tentei demovê-lo dessa ideia, mas ele não abriu mão e infelizmente acabou saindo. Mas ele não foi demitido – prossegue Sette Câmara.

– O Luis Otávio Kalil, sim, porque ele era um preparador físico que trabalhava aqui no clube há muito tempo, mas que foi tendo aumentos expressivos. Ele foi trabalhar como preparador físico do Thiago Larghi e teve um aumento substancial. Depois, com a saída do Thiago Larghi, o treinador que veio em seguida, se não me engano o Levir Culpi, já tinha um preparador físico. E aí ele teve que ficar numa posição de auxiliar, mas com um salário muito alto. Nós entendemos que não era o caso de ele permanecer – afirma o presidente.

Raimundo Cirilo Martins, marido da atual cunhada do prefeito, era supervisor de clubes e lazer e também foi demitido pela gestão de Sette Câmara. Não ficou muito tempo desempregado. No dia 20 de maio, ele foi nomeado para um cargo na prefeitura de Belo Horizonte, no grupo de direção e assessoramento na fundação de parques municipais.

Procurado pela reportagem, Alexandre Kalil afirma que “sempre puxa bons profissionais para trabalhar” com ele, a exemplo da ex-diretora Adriana Branco, hoje funcionária da prefeitura, e do ex-diretor financeiro Carlos Fabel, que trabalhará em sua campanha eleitoral para reeleição.

Sobre Raimundo Cirilo, Kalil disse que o marido de sua cunhada, portanto concunhado, não é seu parente. O prefeito acrescentou que ele é ótimo profissional. Sobre o filho Felipe Kalil e o sobrinho Luis Otávio Kalil, o político afirmou que ambos são “excelentes profissionais contratados por outras gestões”.

O prefeito nega haver conflitos com o presidente do Atlético, Sette Câmara, e disse que o clube está em paz.

Também procurado para se manifestar, Raimundo confirmou as informações sobre a demissão no Atlético e a admissão na prefeitura. Sobre o parentesco com Kalil, o concunhado não vê conflito.

O contragolpe no presidente

Do outro lado da história, a gestão de Sette Câmara também é alvo de críticas. A contratação do advogado Raul Olivardes Ribeiro Júnior, ex-sócio e amigo próximo do presidente, chamou a atenção da oposição.

O advogado também é diretor do Instituto Sérgio Sette Câmara. Raul foi contratado em 20 de dezembro de 2017. Seu primeiro contrato previa o pagamento de R$ 60 mil por mês, além de 10% em taxa de sucesso em caso de vitórias judiciais, com limite de ganhos de até R$ 1 milhão.

Em 1º de janeiro de 2018, poucos dias depois da assinatura do primeiro contrato, o documento foi refeito. A cláusula que limitava a comissão em R$ 1 milhão foi retirada.

Contrato do Atlético com Raul Olivardes foi refeito para acabar com limite em honorários — Foto: Reprodução

Contrato do Atlético com Raul Olivardes foi refeito para acabar com limite em honorários — Foto: Reprodução

Apenas 21 dias depois da mudança, o advogado representou o clube na renegociação de uma dívida com a empresa WRV pela compra do zagueiro Cláudio Caçapa e do atacante Guilherme no ano 2000.

O Atlético reconheceu a dívida no montante de R$ 64 milhões. Com a renegociação intermediada pelo advogado Raul Olivardes, o valor caiu para R$ 45 milhões. R$ 19 milhões a menos. Um bom negócio para o clube, mas também para o advogado, que terá direito a quase R$ 2 milhões em um único caso. globo esporte

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